Sunday, December 21, 2008


salta e plana

planta que desabrocha

abre em pétalas

e esconde os espinhos

lindos enlaces de perfume

e tenra morada

atiça o terreno

e envolve o mistério

da vertiginosa queda

salta e plana

cai no leito

desse rio que flui

que brota da nascente

de água mais límpida

pelo frescor abençoado

não há limites para o rio que corre

somos esse rio que volta ao mar

e que faz chover

e contorce a rocha

com singelo bater

acorde da natureza

que pinta a música

no vir a ser

e faz fissura

e deixa entrar

Salta

voa até o rio que corre

abaixo do precipício

vamos juntos navegar

pois eu

também sou flor que voa

Monday, December 01, 2008

RETRATO

Pupila
refletora de sorriso
que brota
natural
mente
desse outro em órbita
que te pressente
sente
ainda pelo corpo
a deslizar

Tuesday, October 28, 2008

Thursday, October 16, 2008

RESENHA DO LIVRO “A COISA EM SI”

“A Coisa em Si” é o primeiro livro de poesia publicado pelo escritor e poeta André Plez, morador da cidade de Mococa, interior de São Paulo. O autor é formado em Letras e aluno de Pós-Graduação em Lingüística e Literatura. Além de sua formação universitária, trava diálogo com outras ciências, como a filosofia, a psicologia e a sociologia.
O livro foi o resultado de toda uma vida de criação. O autor se declara tangido pelo “desejo de criação”, fato que sempre o levou a produzir, em todos os gêneros literários, diversas obras, tendo escrito dois romances, um livro de contos e vários de poesia, ainda não publicados. “A Coisa em Si” foi o seu último trabalho em poesia, escrito “com um sentido maior, em que vida e texto se articulem; letra e sangue se misturem; e espaço e tempo se revelem” - como bem disse Affonso Romano de Sant'Anna, outro poeta contemporâneo.
A poesia oferece ao leitor uma leitura prazerosa, trazendo consigo uma experiência estética diferente do texto em prosa, pois a poesia não fica restrita apenas ao significado, vai além, mostrando-se repleta de sonoridade, ritmo e forma.
A proposta do livro é ressaltar a função poética da linguagem, que busca a palavra-primeira, aquela palavra pura, livre da nomeação pragmática, que quer ser aquilo que representa. Uma rosa no poema é a própria rosa, com seus espinhos, perfume, cores e flores. A rosa é representada pela palavra. A palavra, por sua vez, é a própria rosa, é a coisa em si. É isso que o autor quis revelar através dos seus versos, trazendo a coisa que está sendo representada para fora do texto, tornando a poesia um gênero que transcende o significado, fazendo necessária a união com o ritmo, a sonoridade e a forma.
O universo poético do livro “A Coisa em Si” tende a representar O signo lingüístico em sua forma originária, com múltiplas significações. É uma viagem rumo ao pensamento de um poeta com sensibilidade, que lida com temáticas que envolvem a condição humana. Também é trabalhada a questão da metalinguagem, que é o poema que quer se explicar, bem como o ofício de escritor, que existe em todos nós. Existem ainda poemas sensuais, que buscam representar a completude do amor, da figura feminina, bem como poemas que destacam os desencontros entre os amantes. Com um senso profundo da alma humana, podemos perceber uma tendência ao pessimismo, sendo este necessário para a compreensão da natureza do mundo e do homem contemporâneo, que busca sua identidade em meio à fragmentação do cotidiano desenfreado.
Afinal, o livro “A Coisa em Si” é o resultado de um lirismo ornado por uma multiplicidade de sentidos, eixos temáticos, ritmos e imagens, próprios da natureza humana. É um livro que se torna um “ser de linguagem”, uma coisa em si.

Futuramente serão postadas as datas e os locais de lançamento - previstos para Novembro e Dezembro de 2008.

Wednesday, July 30, 2008

QUEM SOU...


Após tantos anos
Cá estou eu
Com meu estilo
Quase certo do certo
Em face do desconhecido

Teimo em querer ser
Aquilo que digo que sou
Sem saber que o que bendigo
Nega aquilo que estou

Sou o que calo

Monday, June 23, 2008

ALGUÉM QUE SONHA

Um olhar razoável sobre a questão,
É o que esperam como doação.
Ilusão aprovável, pois faz jus,
À maleável ação de quem seduz.
Aceitam de forma fácil o fácil;
Efemeridade que dura muito tempo...
Sem tempo pro alento,
Sendo que o luto é carregado por um monte de cruz (e credo)
De fé morta,
Recomposta por uma borboleta cinza
Que passa sem avivar a memória,
E se o faz,
Desfaz,
O encanto da cor rósea.


Sendo o cinza a verdade verdadeira da história de outrora,
Quando contavam que o pó da asa nos deixaria cegos,
Ou ainda: que era uma bruxa a tal cinza que voa!

Voando com o olhar
do pequeno a acompanhar
suas batidas
voa bela e exuberante
mas deixa medo no seu rastro cegante
em gargalhadas bruxescas
que mexem na espinha da gente

E assim vai a verdade a escorrer,
A transcorrer o limite da vaidade,
Sendo que a verdade
É cinza demais
Para alguém que olha para o alto,
E se vê lá embaixo,
Como alguém a sonhar.

Friday, June 20, 2008

A COISA EM SI

Qualquer que seja a coisa
Ou a não-coisa
Estaremos por aqui
Nessa mania de tentar ser coisa-em-si
Freneticamente em-si
Para poder sonhar no fora-de-si
Se espelhando no-ser-em-outro
Acreditando que estamos no-outro-e-pelo-outro
E, dessa maneira, enfim, felizes
O que não deixa de ser cômico-trágico
Como uma ansiedade mesclada à nostalgia de nós-mesmos
Que se torna, em ritmo roseano,
Numa ansialgia
Ansialgia de um tempo-em-si-mesmo que não volta
E que está preso
Em algum lugar desse alguém-em-si
Que somos nós-mesmos aqui e ali

Wednesday, May 28, 2008

POEMA DE UM OLHAR PERDIDO


Ainda ontem
Quando te vi e ouvi
Encontrei – novamente – em mim mesmo
Aquele velho – porém – menino sentimento
E teu olhar – à distância – se dirigindo ao meu
Revelava o teu desejo visto – mas – não enxergado
E nesse abismo – de trinta centímetros – vertiginoso
Que nos separa
Do real e do possível [intercalando o (ir) e (im)]
Continuamos a sufocar nosso super-id
Negando o suor do perder-se em si
Para continuar espreitando – em distância – um só
Acreditando na impossibilidade – a um passo – do toque
Confiamos no não-querer e não no seu contrário
E com isso partimos para a realidade – que faz:
– suspirar e continuar e acentuar e tanger e aprender e esquecer e sufocar –
...
E pensar que ainda ontem
Tão perto e tão longe
estava eu – estava você – estávamos nós
simplesmente – e por auto-vontade – a sós

Tuesday, May 20, 2008

Conheçam o conto: A MENINA QUE ANDAVA ENGRAÇADO

Deixarei aqui um link para o portal A Garganta da Serpente, onde foi publicado o conto "A Menina que Andava Engraçado".



http://www.gargantadaserpente.com/coral/contos/anpl_menina.shtml



Boa leitura!

Friday, May 09, 2008

AMIZADES ANTIGAS


Que beleza há no encontro
De amizades antigas
Aquelas da meninice
E o assunto é o retorno
Desse tempo que não volta
Mas que se faz presente...
E é apenas isso que (re) volta
Mostrando que apenas o passado
É latente
E o presente
Converte-se
Numa matéria que não compete
E esses amigos remotos
Perderam-se pelo tempo
Tornando o reencontro vazio e
descontente...

Thursday, April 17, 2008


as três estrelinhas que aparecem e somem,

na mesma pele salgada, quente e vívida...

quem acompanha o astro?

Já não sei distinguir os astros e as estrelas...

é tudo uma luminosidade só...

Friday, February 22, 2008

O OBJETO DIVINO

O que poderia dizer deste objeto? O fizemos hoje à tarde, nos preparando para usá-lo à noite, na alcova, como deve ser feito, embrenhados em alguma sombra da vigília, nos escondendo da lua, pois nem ela pode presenciar tal acontecimento. É algo único e exclusivo, para privilegiados ou não que, mirando-se na ponta do objeto, retiram ternas calmarias e turbulentas inquietações. Uma mescla de sensações, de euforia intensa, de tristeza profunda. Poderia muito bem dizer que este objeto transmuta nossa essência para além de nós mesmos. Não seria ousado afirmar que perdemos nossa identidade, todas elas, e nos tornamos leões presos em pequenas jaulas, de onde podemos apreciar somente uma pintura daquilo que foi nosso verdadeiro lar; ao invés de carne fresca, feno; ao invés de montanhas e estepes, chão enferrujado e carcomido pela urina; ao invés do céu, uma massa enegrecida pela chuva.
Não poderia dizer que moldamos calmamente o objeto, pelo contrário, fizemos com as mãos trêmulas, imaginando o momento de usá-lo, de perpetuá-lo, de fazê-lo exalar. Os olhos estalados, a respiração arfante, o coração descompassado; seria a emoção? Creio que sim! Nos sujeitávamos a este ofício por prazer, para, na verdade, matar o tempo. Não agüentávamos mais esperar até a noite, momento em que iríamos buscar o combustível da nossa obra. E o melhor: ficaríamos livres dos objetos improvisados, sem caráter, sem nosso toque especial... moldamos com nossas mãos, nossos dedos amarelentos. E logo o usaríamos... ah, se ansiedade matasse...
Ao terminarmos o colocamos para secar junto ao sol. O mesmo calor que o endurecia acabava por ferir nossos olhos sem luz que, perdidos em si mesmos, migravam para uma região inabitada, onde um corpo sem voz tentava clamar pela força felina que jazia ao fundo de uma cela... na verdade estávamos cansados, mas não tínhamos outra opção. Como louvadores sem deuses que, por mera coincidência forçada, encontram a estátua de algum ser divino, reconhecendo nesta aparição o seu júbilo, e assim se entregam em adoração. Ficamos a observar aquele objeto, reconhecendo nele a satisfação futura, e assim nos reconfortamos... não isentos de uma ansiedade destruidora e muda.
Cair da noite. Hora da caça. Rua. Calçadas estreitas. Calçada sem acabamento. Terra fria. Palmas que ecoam. Um vulto aparece acima do muro. Um pedido. Uma entrega. Uma saída rápida. Olhar para os lados antes de atravessar a rua. Cair da noite. Fim da caça. Recolhimento da presa. Volta ao objeto adorado. Hora do louvor.
* * *
O sol da manhã acompanhava todo o quintal, que estava coberto por um cimento enlodado, geometricamente trincado, com folhas secas da velha goiabeira pelo chão. Um cão passeava por lá, sem latir, estava em busca de algum resto de comida que não existia. Coçou a pelugem seca, que voava com o vento, aumentando o amontoado de pêlo negro no canto da parede sem reboque. Os olhos caninos viram, ao longe, um pequeno objeto estirado no chão. Correu imaginando ser um osso mas, que decepção, era um pequeno cachimbo. Estava ainda quente e cheirando a borracha queimada. O pequeno cão foi espantado por uma menina, quase tão pequena quanto ele que, ao reconhecer o objeto que seus irmãos adoraram durante a madrugada, ficou absorta em saber qual era seu poder, mas não saiu fumaça alguma quando o enfiou na boca, como uma chupeta, e o sugou. Apenas um gosto horrível e a vaga lembrança da noite passada...
No início foram risos e louvações, como os crentes que se encontram diante da imagem e da sensação de um bom deus, que eles mesmos criaram para diminuir sua pequenez, mas que revigora e sacia a fome; mas logo este deus, que era um deus castrador, mostrou sua outra face. E começou a dúvida, as perguntas sem explicação, a sensação de vazio, o medo, o rancor, o ódio... aquele deus os abandonara. Estavam irremediavelmente sozinhos. E a fumaça da louvação se converteu em insanidade e vazio. Estavam, literalmente, crédulos.