Wednesday, May 28, 2008

POEMA DE UM OLHAR PERDIDO


Ainda ontem
Quando te vi e ouvi
Encontrei – novamente – em mim mesmo
Aquele velho – porém – menino sentimento
E teu olhar – à distância – se dirigindo ao meu
Revelava o teu desejo visto – mas – não enxergado
E nesse abismo – de trinta centímetros – vertiginoso
Que nos separa
Do real e do possível [intercalando o (ir) e (im)]
Continuamos a sufocar nosso super-id
Negando o suor do perder-se em si
Para continuar espreitando – em distância – um só
Acreditando na impossibilidade – a um passo – do toque
Confiamos no não-querer e não no seu contrário
E com isso partimos para a realidade – que faz:
– suspirar e continuar e acentuar e tanger e aprender e esquecer e sufocar –
...
E pensar que ainda ontem
Tão perto e tão longe
estava eu – estava você – estávamos nós
simplesmente – e por auto-vontade – a sós

Tuesday, May 20, 2008

Conheçam o conto: A MENINA QUE ANDAVA ENGRAÇADO

Deixarei aqui um link para o portal A Garganta da Serpente, onde foi publicado o conto "A Menina que Andava Engraçado".



http://www.gargantadaserpente.com/coral/contos/anpl_menina.shtml



Boa leitura!

Friday, May 09, 2008

AMIZADES ANTIGAS


Que beleza há no encontro
De amizades antigas
Aquelas da meninice
E o assunto é o retorno
Desse tempo que não volta
Mas que se faz presente...
E é apenas isso que (re) volta
Mostrando que apenas o passado
É latente
E o presente
Converte-se
Numa matéria que não compete
E esses amigos remotos
Perderam-se pelo tempo
Tornando o reencontro vazio e
descontente...

Thursday, April 17, 2008


as três estrelinhas que aparecem e somem,

na mesma pele salgada, quente e vívida...

quem acompanha o astro?

Já não sei distinguir os astros e as estrelas...

é tudo uma luminosidade só...

Friday, February 22, 2008

O OBJETO DIVINO

O que poderia dizer deste objeto? O fizemos hoje à tarde, nos preparando para usá-lo à noite, na alcova, como deve ser feito, embrenhados em alguma sombra da vigília, nos escondendo da lua, pois nem ela pode presenciar tal acontecimento. É algo único e exclusivo, para privilegiados ou não que, mirando-se na ponta do objeto, retiram ternas calmarias e turbulentas inquietações. Uma mescla de sensações, de euforia intensa, de tristeza profunda. Poderia muito bem dizer que este objeto transmuta nossa essência para além de nós mesmos. Não seria ousado afirmar que perdemos nossa identidade, todas elas, e nos tornamos leões presos em pequenas jaulas, de onde podemos apreciar somente uma pintura daquilo que foi nosso verdadeiro lar; ao invés de carne fresca, feno; ao invés de montanhas e estepes, chão enferrujado e carcomido pela urina; ao invés do céu, uma massa enegrecida pela chuva.
Não poderia dizer que moldamos calmamente o objeto, pelo contrário, fizemos com as mãos trêmulas, imaginando o momento de usá-lo, de perpetuá-lo, de fazê-lo exalar. Os olhos estalados, a respiração arfante, o coração descompassado; seria a emoção? Creio que sim! Nos sujeitávamos a este ofício por prazer, para, na verdade, matar o tempo. Não agüentávamos mais esperar até a noite, momento em que iríamos buscar o combustível da nossa obra. E o melhor: ficaríamos livres dos objetos improvisados, sem caráter, sem nosso toque especial... moldamos com nossas mãos, nossos dedos amarelentos. E logo o usaríamos... ah, se ansiedade matasse...
Ao terminarmos o colocamos para secar junto ao sol. O mesmo calor que o endurecia acabava por ferir nossos olhos sem luz que, perdidos em si mesmos, migravam para uma região inabitada, onde um corpo sem voz tentava clamar pela força felina que jazia ao fundo de uma cela... na verdade estávamos cansados, mas não tínhamos outra opção. Como louvadores sem deuses que, por mera coincidência forçada, encontram a estátua de algum ser divino, reconhecendo nesta aparição o seu júbilo, e assim se entregam em adoração. Ficamos a observar aquele objeto, reconhecendo nele a satisfação futura, e assim nos reconfortamos... não isentos de uma ansiedade destruidora e muda.
Cair da noite. Hora da caça. Rua. Calçadas estreitas. Calçada sem acabamento. Terra fria. Palmas que ecoam. Um vulto aparece acima do muro. Um pedido. Uma entrega. Uma saída rápida. Olhar para os lados antes de atravessar a rua. Cair da noite. Fim da caça. Recolhimento da presa. Volta ao objeto adorado. Hora do louvor.
* * *
O sol da manhã acompanhava todo o quintal, que estava coberto por um cimento enlodado, geometricamente trincado, com folhas secas da velha goiabeira pelo chão. Um cão passeava por lá, sem latir, estava em busca de algum resto de comida que não existia. Coçou a pelugem seca, que voava com o vento, aumentando o amontoado de pêlo negro no canto da parede sem reboque. Os olhos caninos viram, ao longe, um pequeno objeto estirado no chão. Correu imaginando ser um osso mas, que decepção, era um pequeno cachimbo. Estava ainda quente e cheirando a borracha queimada. O pequeno cão foi espantado por uma menina, quase tão pequena quanto ele que, ao reconhecer o objeto que seus irmãos adoraram durante a madrugada, ficou absorta em saber qual era seu poder, mas não saiu fumaça alguma quando o enfiou na boca, como uma chupeta, e o sugou. Apenas um gosto horrível e a vaga lembrança da noite passada...
No início foram risos e louvações, como os crentes que se encontram diante da imagem e da sensação de um bom deus, que eles mesmos criaram para diminuir sua pequenez, mas que revigora e sacia a fome; mas logo este deus, que era um deus castrador, mostrou sua outra face. E começou a dúvida, as perguntas sem explicação, a sensação de vazio, o medo, o rancor, o ódio... aquele deus os abandonara. Estavam irremediavelmente sozinhos. E a fumaça da louvação se converteu em insanidade e vazio. Estavam, literalmente, crédulos.

Thursday, December 13, 2007

...hoje!


Hoje seria um dia especial.
Um dia em que gostaria que estivesse sentada ao longe,
escutando uma das suas músicas prediletas,
que eu finjo que gosto
por gostar de você.
E neste meio-tempo supostamente perdido,
me faço de desatento,
disfarçando não perceber que canta junto com a música,
como se voltasse à infância;
sacudindo os cabelos,
fechando os olhos,
imaginando-se no palco,
como se você fosse o ídolo...
ah, se você soubesse
que seu maior fã
está a espreita,
admirando a tua estrela
no palco do cotidiano...

Thursday, August 23, 2007

VIRTUALISMOS...


Cada mulher desperta algo no poeta que a observa,
Que se confrange diante de expirações e inspirações,
Para aliviar-se com a calmaria de um silêncio...
Há uma destas meninas-distantes que se destaca,
Onde o platonismo romântico torna-se praticável:
Uma habitante de Macondo!
Foi nesta aldeia que a conheci...
Encontrei-a caminhando pelas ruas fantásticas desta cidade imaginária;
Em verdade a encontrei no nicho da internet.
Sim, ela é virtual.

Como adoraria ter a tua inspiração sempre por perto...
Em cada um dos nossos diálogos
(cercados por códigos binários)
Posso retirar inúmeros versos...
Imagina quantos pássaros de fogo não tiraria do teu olhar?...

Tuesday, June 19, 2007

TEORIAS...


Ela me indicou um livro do García Marquez...
De pronto respondi:
- Estou precisando mesmo de uma leitura sublime,
Que atice a imaginação sem grandes pretensões...
- a leitura pela leitura, e nada mais!!! –
E ela diz, calmamente, com os olhos brilhantes:
- Estou extasiada... quando puder leia também!
E ela fica linda quando diz isso (e em quase tudo o que ela diz!)
- Vou procurar ler, para também extasiar-me...
E reflito (em conflito), como se fosse impossível a não-abstração:
“que atice a imaginação sem grandes pretensões...”
Da maneira como eram as primeiras leituras...
A Teoria tanto alimenta o intelecto quanto arruína os deslumbramentos...
E ela, estudante de psicologia, recebe a pergunta:
- Consegue ver o ser humano com os mesmos olhos inocentes de outrora?
Consigo eu ler um livro com a mesma ingenuidade (e como era bom!!!) de antigamente?
Teorias e mais teorias...
mas se não fossem elas, como seria?

E ela me fita... horrorizada...

Tuesday, May 29, 2007

UNIDUALIDADE


Em pensamentos:
sensações cosmogônicas invadem meu ser, me trazendo a sensação do infinitesimal... contato com o cosmos ou apenas um desvio para o que há de mais sublime na natureza humana? Unidualidades...Seria você???


E assim vamos seguindo
Ocultando desejos
Inventando leis e regras que nos inibem...
Uma forma de preservar-se à frustração?
Mas se a vida é tão dela...
Como partir para o princípio?
(preciso disso para justificar o final...)
É complicado estes desejos furtivos...
quero-te, mas apenas por agora!
Talvez por instantes mais, só não sei quantos mais...
E não me cobre isso!
Apenas me descubra, revelando meu corpo nu...
...aí podemos brincar sem roupa
como temos verdadeiramente vontade!
Por que ocultar esta certeza?
Ah, as leis e regras da sociedade...
mas existe sociedade entre quatro paredes?
Bom... vou indo. Me procura.
E retrucas:
- Mas como te encontrar? Não tenho teu endereço...
E re-retruco:
- Tens algo mais importante: tens meu apreço!
Isso já não basta?


=o silêncio que precede a entrega=

Tuesday, May 08, 2007

SUSPIROS...


Pergunta-me como descrever o suspiro
Que nada mais é que o enlevo da nossa cumplicidade...
Me arrisco e insisto, com todo o meu carinho:
O suspiro...
no meu caso é um olhar perdido...
e uma vontade...
e um desejo e uma angústia...
e uma saudade
e duas vozes que não falam... mas se fazem entender
e se entendem como nenhuma outra voz ainda conseguiu...
e isso surpreende e encanta...
...

<<suspiro>>

Monday, March 26, 2007

HONESTIDADE



Ardil que dilacera;
Angústia que dissemina;
Manter-se fiel ao sonho
É o mesmo que se erguer entre macacos.
Fealdade do tempo;
Máscara da intempérie;
A lascívia da natureza eterna
Que não se transforma,
Que rege a psique e as inconseqüências;
Manter-se fiel ao sonho,
À fraca imaginação;
Ao lodo do imaginário;
Embuste descarado;
Amarga honestidade;
Fingir-me!
Flagrar-me!
Eis minha face à mostra:
A de um honesto derrotado
Por sua honestidade impotente.
Antes uma mentira,
Mas até ela seria honesta!

Wednesday, February 28, 2007

SONETO XI

O esvaecer do dia. Requeira para si o tema Horaciano...

Quando tudo se silencia,
Procuro a terna calmaria;
Nestas visões um pouco tardias,
Que se revelam em finais de dias.

O pôr-do-sol acontece,
E tudo em mim se estremece,
Tentando salvar um pecado
Que se revela inalterado.

O erro do minuto seguinte,
Quando o escuto por conseguinte,
Num relógio qualquer e abalado.

O instante nem sequer é alterado,
E mais um dia se vai desesperado
Sem nos ter enfim despertado.

Friday, January 19, 2007

DECIDIDAMENTE...



Cientificamente eu saberia responder,
Mas espiritualmente receio que não.
De onde vem esse líquido
Que sai de meus olhos e inunda minha boca?
O gosto salgado seria uma referência ao mar?
Um amontoado de perguntas pairando na alma,
E um peso terrível herdado em tão poucos anos...

Psicologicamente eu saberia responder,
Mas objetivamente receio que não.
De onde vem essa saudade de algo que nunca tive?
O que meu espírito deseja rompe minha realidade;
Em sonhos transbordo em ondas mornas,
Mas sou despertado pela frieza da rotineira certeza.
A sina que me fiz herdeiro me atormenta...

Filosoficamente eu saberia responder,
Mas sentimentalmente receio que não.
De onde vem essa solidão de idéias,
Esse dizer que ninguém entende?
As idéias pairam como sombras de vela,
Erguendo suas imperfeições e revelando mistérios,
Mas essa herança da incerteza me desconcerta...

Divinamente eu saberia responder,
Mas humanamente receio que não.
Naturalmente me afasto do religare,
E tombo abatido entre livros santos
Que nenhum conforto me traz...
Tateando no mundo obscuro do Eterno,
Percebo minha sina que herdei por ser humano...

Decididamente eu criei a minha herança,
E hoje partilho as dores da minha angústia
Com aqueles que me rodeiam.
Meus antepassados me delegaram buscas,
Que hoje deixam obscuras as minhas procuras.
Subjetivamente posso responder a mim mesmo,
Mas ainda não aprendi a fazer a pergunta correta...

O segredo da resposta está no que a antecede...

Tuesday, January 09, 2007

OBSERVAÇÃO MATUTINA


Observando pássaros sutilmente pousados nos fios de alta tensão
Percebo como se assemelham a uma partitura musical
* * *
O homem interfere na natureza
Assim como a natureza interfere no homem

* * *
Mas que contraste absurdo há nessa interferência!

Friday, January 05, 2007

Mensagem de ANO NOVO - 2007 -






? ... 1980 - 1981 ... 2002-2003 . . . 2007... ?


A cada ano que se vai percebemos menos os caminhos que percorremos ao longo dessa trilhagem. "Tudo passou tão rápido", diz a maioria. Mas percorrendo novamente esses caminhos podemos verificar que foram várias as estradas que ladeamos; que foram muitas as pedras que descavamos; que muitos deslumbramentos nos encantaram ao horizonte... quantas essências fragmentadas não conseguimos captar; quantas vozes não ansiamos em ouvir; quantos sonhos não jazem perdidos pela falta de memória ao despertar... E de toda essa finitude posso afirmar que o tempo (esse velho gozador) nos fornece o material necessário para nos perdermos ou nos conduzirmos de forma precisa... Vimos tantos caminhos: alguns foram trilhados, outros deixados de lado. E querem saber de algo? Sabe o motivo de vermos sempre o tempo passando rápido e confuso? Por que o caminho que trilhamos acaba passando despercebido! Nos preocupamos demasiadamente nos caminhos que não estamos a trilhar... Aquela estrada que nos conduz é ofuscada pelo horizonte, pela pista ao lado; nos preocupamos em demasia com sonhos e formulações... ficamos tão acostumados a perguntar se estamos certos ou errados que não percebemos a evidência que se oculta nos detalhes, nos pequenos e fidedignos detalhes que estão à nossa frente... Os caminhos que não trilhamos nos incomodam e nos ofuscam demais. Vivamos nosso caminho real nesse novo ano. Vamos nos preocupar com nossa essência e compreender o caminho (não o caminho do lado, mas o NOSSO caminho).
É o que desejo a todos.
Feliz 2007 - SORTE E COMPETÊNCIA -

Wednesday, December 13, 2006

DESPEDIDA


DESPEDIDA

Esgueirando pelos cantos impuros,
Percebo uma veste na cor das trevas.
E refletindo sobre esta vil miragem
Estremeço até o último sentido.

Qual o apreço que dedico a esta visão?
O medo será mera alusão,
Ou as vestes intocadas da libertação,
Enfim, vieram me visitar?

Comungo com esta breve náusea,
E levitando sou atraído em sua direção,
Como uma presa que irresistivelmente
É impelida em direção ao abismo...

E tombo, num torpor de enternecimento,
Pois perco aquilo que me torturava,
O peso do mundo ante minhas costas;
E perco aquilo que me sufocava,
A máscara servil que me enfeitiçava;
E perco aquilo que me silenciava,
A música trêmula que me calava;
E perco aquilo que me açoitava,
Os chicotes perversos que me enxergavam.

E tombo no precipício...
Nas nuvens do silêncio sou revestido.
A doce brisa me conforta;
E sorrio...!
Pela primeira vez sem direção,
Pois flutuo sozinho na imensidão,
Abandonando a mais vil das obrigações:
A de sustentar um rosto e uma vida!

Friday, November 17, 2006


SONETO XXXII

O mistério que fascina e faz dos amantes doces poetas...

Mulher de orgias misteriosas,
De ventre e linhas sinuosas;
Que grande mistério
Se esconde em teu sexo etéreo?

Quero mergulhar nestas ondas mornas,
E este desejo, que vivo tu tornas,
Atice-o ainda mais, bela criatura,
E amar-te-ei com toda minha ventura.

Fico ébrio em teu umbigo fogoso,
Tocando-o com meu sabor honroso,
Por provar tal cavidade de sabores...

Nas ondas que são teus seios em amores,
Cubra-me, saborosa mulher madura,
E sacie minha curiosidade com candura.

Tuesday, August 15, 2006

A Rua do Silêncio


Dificilmente ouço barulho de carros, motos ou pessoas passando por aqui, na rua do silêncio.
Todos os entes queridos, amigos ou irmãos, hão de por passar aqui deitados, queiram ou não. Na esquina mais próxima de minha casa existe um velório, lá sempre limpam e vestem os mortos. Era nossa diversão na infância, espiar as pessoas chorando e rezando por seus parentes, para assim esquecê-los durante as horas de suas vidas.
Lágrimas, dor e contentamento. Sempre assim. Encarávamos a morte com naturalidade, até ela nos chamar. Isso mesmo, ela veio e buscou nossa amiga mais próxima, justo aquela que tanto tinha o que fazer nesta vida. Talvez por ser tão importante Deus a quisesse eternamente do seu lado. Isso nos chocou tanto que crescemos. Passamos a enxergar os dois lados da rua, em uma ponta o velório; na outra, a boca do cemitério, pronto para engolir os corpos queridos e amados, odiados ou repugnados. Isso sempre esteve lá, mas não enxergávamos.
Sempre faltava luz, não importava ter um milhão de lâmpadas acesas, sempre era mais escuro que a casa de outros amigos, que moravam em outras ruas. Sempre a escuridão, a visão de enterros, pessoas chorando e rezando, meditando e se perguntando: Por quê? Ninguém sabia a resposta, mas o que importava era que sabíamos que um dia alguém estaria chorando por nós e não mais caminharíamos em pé pela rua do silêncio, e sim deitados em nossos calvários de madeira, com astes retorcidas por prantos e lágrimas, para enfim sermos enterrados e esquecidos.
A rua da saudade nos causava de certa forma um pânico em querer viver, pois ali o relógio corria mais rápido, a qualquer hora nossa irmã morte vinha nos visitar.
A história de nossas avós nos causava medo, pois contavam que viam espíritos caminhando pelas ruas e olhando para os lados, sem entender onde estavam. Carruagens e barulho de cavalos sempre nos atormentavam. Uma vez ouvi um galope em frente a minha casa, saí para ver, todo suado e frustrado, e o que aconteceu? Nada. Não havia nada.
As procissões sempre passam por aqui, pois precisam ir para o cemitério. Se alguém quiser ver a morte venha aqui! Dia ou noite, ela sempre está aqui. Seu plantão não tem fim, desde os primórdios.
Demoraram quatro dias para encontrar o corpo de nossa amiga e quando a resgataram foi somente festa e louvor. Ouvi alguém dizer: “parece que a encontraram viva”. Ilusão causada pela felicidade mesclada à tristeza que sentiam. Que pena, que saudade...
Senti-me certo tempo sem vontade de viver. Para quê? Por quê? Para um dia ser levado e esquecido pela rua do silêncio? Que existência mais inútil. E senti-me sem vontade de viver ou morrer, e entreguei-me às drogas. Depois de certo tempo vi que neste caminho sem esperança e sem destino me entregava cada vez mais aos braços da morte. Estava morrendo no auge da minha vida, tinha que parar de me culpar, não era responsável por tantas mortes. Era só mais um simples espectador.
A visão que hoje tenho é de uma rua comum, com crianças, velhos e jovens, conversando e vivendo. As lâmpadas sempre mais apagadas e um frio diferente do inverno. Isto meu amigo, é a Rua do Silêncio. E você um dia passará por esta rua, não em pé, mas deitado e carregado.

Tuesday, April 11, 2006

SONHO



No emaranhado da loucura
Enxergo uma luminosa escultura,
Tão doce e gentil como uma fada.
E nesse inconsciente tenho curta estada,
Pois a razão dilacera o encantamento,
De um sonho em divino firmamento.
Caio sem sentidos na realidade ,
E choro pelo sonho em inverdade;
Pois tal aproximação com a plenitude,
Deixou-me jogado em mero ataúde,
Pois da terra nada espero,
E sim o que simplesmente quero
É um segundo a mais no paraíso,
Para admirar o majestoso sorriso
Que provinha de minha dama,
Irreal como uma mera trama,
Que tenta subjugar o profeta,
Que compreende a luz desta descoberta...

Wednesday, March 29, 2006

Prólogo do Romance - A FACE OBSCURA DA VIDA


PRÓLOGO

Corpus debile


A noite revelava a face obscura da vida. As fracas lâmpadas daquela rua sinistra não escondiam a presença enlevada da morte, que teimava em rondar os fantasmas que perambulavam pelas sombras. Não existiam muitos humanos naquele lugar torpe, mas uma escória que migrava de vales inexatos, que perambulava através das trevas, procurando algum espírito para dilacerar, ou alguma fuga condenável para se esquecer de seus infernos terrenos. Restos desagregados de vícios, era somente isto naquela noite fria e úmida.
César fumava descompassado o seu cigarro. Intimamente não sabia se estava tendo uma vil alucinação, ou se realmente a brasa sorria para seu rosto pálido, que fazia brotar ligeiras marcas de suor; um suor viscoso e gélido. Frio estava o seu coração, que restabelecia mil vezes o mesmo plano de batalha. Realmente era aquilo que iria fazer, viajar para um campo de batalha, entrar em uma arena com dezenas de leões e gladiadores, e com sua tímida lâmina teria que exterminar todos os agressores que zombavam de seu rosto trêmulo. Em nenhum caso seu espírito relutou tanto; talvez tivesse medo da conseqüência de seus atos, ou da tenebrosa sensação de olhar dentro de si próprio. Em momentos conflitantes a viagem dentro da própria alma é uma atribulação considerável, pois quando o fazemos, descobrimos demônios e incertezas que nos mostram um pedaço do nosso inferno pessoal, dos nossos medos mais reclusos, e dos sonhos que se estilhaçaram durante o cair da areia do tempo; mas esta viagem guarda segredos infindos de nossa incógnita, de nossa natureza indefinida. Podemos descobrir potencialidades, dons, mistérios; ou podemos despencar ante a mais sagrada das obscuridades: o vazio da solidão, a loucura pessoal, que dorme dentro de cada um.
Não havia estrelas no céu, somente a vertigem de um sereno ritmado e sombrio. Um dos piores sentimentos humanos é a espera. César odiava ter que esperar algo. Sua natureza ativa e inconstante não o permitia viver horas num acalanto, num gorjear de pássaros, numa cadeira de balanço qualquer; queria que tudo acontecesse rápido, pois não gostava do medo, gostava de se livrar logo desta sensação, pois sabia que, se demorasse muito, aquele sentimento transformar-se-ia em pavor, como estava acontecendo. César sentia o pavor crescer dentro de suas certezas.
O pavor é bem diferente do medo. Este primeiro desperta nossas angústias, nos prendendo em nossa natureza casta, em nossos frutos infecundos, nos amedrontam e nos matam. O medo já é diferente, pois nos sentimos invadidos por um desespero que nos encoraja a cumprir qualquer tarefa, para nos livrarmos da obsessão que nos aflige; somos sacudidos até vencê-lo.
O cigarro chegara ao filtro. O cheiro ruim que desprendeu do pequeno bira fez o corpo de César tremer. Com as mãos firmes, apesar de toda a sua turbulência, retirou outro cigarro do bolso interno de seu paletó negro, que se confundia com a noite, e acendeu-o usando o toco de tabaco que restava entre seus dedos crispados de sereno. Sentiu um estremecimento. Retirou rapidamente o maço do bolso e viu que ainda restavam nove cigarros; respirou aliviado, pois se ficasse sem o sustento do seu vício, não teria onde se refugiar. Leu mecanicamente a advertência do nosso Ministério, como se quisesse fugir dos seus pensamentos: “Crianças começam a fumar ao verem os adultos fumando”. Um sorriso sarcástico afluiu em sua expressão séria, deixando-o mais indignado.
Soltou uma longa baforada, que se assemelhava aos espíritos da noite. A luz do poste refletida sobre ele enalteceu a figuração do sopro e pôde contemplar com uma frigidez insana a fumaça cinérea se dissipando. Caminhou onze passos em direção da escuridão, contava seu caminhar e fazia gestos frenéticos com a mão que se apoiava no cigarro. Sentiu a arma em sua cintura, e pensava em como gostaria de usá-la, para terminar de uma vez por todas com sua vingança.
Seu instinto policial flagrou-o quando olhou disfarçadamente para um mendigo que estava deitado ao lado de um empilhado de lixos. Aquele pedinte era seu amigo Carlos, seu parceiro. Em seus pensamentos tinha a sensação que tudo daria certo. Poderiam ter imprevistos, mas sua experiência e furor resolveriam tudo. Arquitetara o plano em sua insanidade, em seu momentâneo colapso da razão. Estes feitos, promovidos durante a falta da razão, geram e nutrem os planos mais miraculosos e mais violentos de espírito. Olhou de soslaio para seu amigo e recebeu um curto sinal com a mão. Não acreditava como o amigo estava deplorável, pois adorava vestir-se com fineza, sempre esbanjando sofisticação. Aquele contraste manifestava uma dose de hilaridade, apesar da apreensão. Sorriu com o canto dos lábios e observou novamente onde estava.
O asfalto negro se assemelhava a um imenso mar de lodo e devastação. As pequenas construções, as casas repletas de grades, os amontoados de entulhos, pareciam sangrar, com suas veias de concreto chorando pelas chagas herdadas de sua cidade. Aquele bairro era um dos piores daquela labiríntica cidade. O contraste com a natureza humana tornava-se bizarra. Lixos espalhados pareciam monstros que dormiam disfarçadamente, esperando que alguma vítima se aproximasse, para que pudessem dominar seus corpos e se comprazer em suas barbaridades.
César caminhou e encostou-se a um dos postes. Acendeu outro cigarro, não podia parar de fumar, tinha que se prender em algo real. Olhou para uma pequena vidraça enegrecida logo a sua frente, que se mantinha protegida por grades enferrujadas e salientes. Viu sua aparência pavorosa e determinada. Não se reconheceu, estava literalmente desfigurado; não era a culpa da escuridão ou da conclusão de seus planos, era seu espírito que relutava em acreditar na vida. Seu porte já fora mais atlético, era até mesmo invejado pelos homens da academia, quando antigamente treinava defesa pessoal e desprendia sua ira conquistada no trabalho em anilhas de vinte quilos. Seu rosto era uma mancha apagada e sinistra. Os lobos temem o que é sinistro, isto o protegia. Seus olhos negros eram filhos da noite, juntamente com seu cabelo atrapalhado e engrossado pela falta de zelo. Não dormia a várias noites, sofria de uma perseguição inexata, tornara-se amigo íntimo da solidão e da insônia. Seus lábios estavam secos e sua língua áspera teimava em tentar molhá-los um pouco, mas em vão; nem mesmo a garoa o conseguira. Se algum anjo realmente existisse, sentiria pena desta visão que César tanto odiava intimamente. Realmente ele se odiava como pai, como ser humano. Não tinha mais onde se agarrar, encontrava forças somente na filha debilitada, que precisava ser vingada. “Maldito” – este era seu pensamento.
Assustou-se quando um imenso gato atravessou o caminho, fazendo-o cambalear, deixando seu coração aos solavancos. Viu-o desaparecer sobre os imensos muros e sentiu-se preso ao chão. Quão prisioneiro se sente o homem quando se depara com a liberdade felina em meio à noite.
Ninguém ousava adentrar naquela rua, que era conhecida como beco. Somente se fosse algum traficante respeitado, como este que ele esperava, ou algum maluco que não tivesse amor à vida.
Um grupo de três jovens surgiu na esquina e caminhavam como se estivessem dançando, num ritmo horrendo. Percebia-se somente seus vultos, que cresciam juntamente com suas sombras, que eram projetadas no asfalto carcomido. Passaram diante de César e pediram fogo. O coração do policial se afligiu, tudo poderia dar errado por causa daqueles possíveis viciados. Com receio entregou o cigarro para um dos jovens, que o encarava, como se procurasse analisar sua conduta de estar em um lugar tão ignóbil. Os outros rapazes o esperavam a uns dez passos de distância. Por um momento César pensou que iria ouvir um grito de assalto, mas seu olhar era horrendo e acabou por espantar o jovem. Saiu e agradeceu com sua gíria o homem que lhe cedera a brasa. Desapareceram da mesma forma que entraram, como sombras.
César achava bom que sua aparência estivesse daquela maneira, ou seja, irreconhecível. Se alguém percebesse que era policial, estaria irremediavelmente perdido.
Passados alguns minutos surgiu do mesmo lugar aonde vieram os rapazes, um carro negro e imponente, com uma luz fraca, que iluminava o asfalto, revelando ratos que corriam para os esgotos. Em fração de segundos a mente de César viajou ao passado, revendo toda a história que o levara para aquele local envolto pelas trevas.